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Viral de Studio Ghibli divide reações da esquerda e direita

De uma hora para outra, todo mundo virou anime. Nos últimos dias, viralizaram imagens que utilizavam o ChatGPT para transformar fotos pessoais em desenhos no estilo do Studio Ghibli, famosa produtora japonesa, responsável por obras-primas da animação como Viagem de Chihiro (2001) e o mais recente O Menino e a Garça (2024). A trend começou com a nova atualização do chatbot que liberou um gerador de imagem disponível gratuitamente.
Não apenas esse estilo pode ser facilmente imitado, mas também o dos Simpsons, da Disney, da Pixar, entre outras formas de animação ou desenho. A viralização do Studio Ghibli parece estar ligada não apenas à qualidade dos traços de Hayao Miyazaki, mas também à própria polêmica e a discussão ética do caso. Isso porque o criador dos famosos filmes já se pronunciou, em 2016, contra o uso de inteligência artificial e que “nunca desejaria incorporar essa tecnologia” ao seu trabalho. “Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida”, disparou.
Mas o debate chegou aos políticos brasileiros e, como boa parte dos assuntos, houve polarização na forma como o fenômeno foi recebido. Enquanto políticos de direita aderiram à trend e colheram boas reações de seus seguidores, os esquerdistas se viram cobrados por parte de seu público. A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco (PT-RJ), e do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede-SP), a ex-deputada Manuela D’ávila (sem partido) e os deputados do PSOL, Sâmia Bomfim e Guilherme Cortez publicaram imagens suas no estilo Ghibli, mas após repercussão negativa, apagaram e se retrataram.
Cortez, deputado estadual por São Paulo, publicou no lugar um cartoon feito pelo artista Cordeiro de Sá, que o retratava. Na legenda, ampliou o debate sobre o tema. “Achar que apenas a negação ou boicote individual vão fazer a disseminação da IA retroceder é fantasia. A inteligência artificial veio pra ficar, queiramos ou não, com todas as suas contradições e possibilidades. Enquanto rejeitamos a IA, a extrema direita está se apropriando dela para produzir fake news”. Ele ainda defendeu a necessidade de regulamentação dessas ferramentas.
Ao Meio, o deputado falou mais sobre a repercussão de sua publicação e o quanto o assunto se tornou uma pauta moral. “A reação inicial de algumas pessoas foi muito ruim. Descambou para aquele policiamento moral: ‘Se você postou um desenho de IA você é uma pessoa horrível’, ‘perdeu meu voto’. Existe um debate importante, que é sobre os limites que temos que impor para a inteligência artificial, como proteger a produção intelectual e o trabalho dos artistas. Mas todas essas discussões ficam em segundo plano quando vira uma questão moral”, argumenta.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) já foi direto para a publicação de um desenho dela feito pelo artista “Cartunista Das Cavernas” e disse ser importante “em tempos de IA, valorizar o trabalho de artistas reais”. A temática do trabalho, de fato, é uma pauta cara à esquerda. Kleber Carrilho, cientista político e pesquisador na Universidade de Helsinque, lembra que esse espectro tem um movimento ideológico mais definido. Por isso, o aproveitamento rápido de um conteúdo viral funciona muito bem e de forma mais fácil para quem é de direita. Ainda segundo ele, a lógica das redes sociais facilita a disseminação de narrativas políticas (ou as “verdades”) e não necessariamente tem compromisso com os fatos.
Além disso, Carrilho pontua que a direita tem facilidade de usar as redes, mas, sobretudo, que ela construiu sua estética a partir das redes sociais. “Não é que a direita saiba se adaptar mais, é que ela é produto desse momento”, afirma. Para ele, a solução da esquerda deveria ser um movimento que também seja construído a partir das redes, caso contrário, não será possível responder à direita no ambiente que ela foi formada. Como exemplo positivo, cita o sucesso de Alexandria Ocasio-Cortez, congressista democrata dos Estados Unidos, e do partido Podemos, da Espanha.
A polêmica não tem consenso nem mesmo entre artistas e cartunistas. Enquanto uma parte protesta e alerta para os problemas éticos de treinar chatbots de IA sem respeitar os direitos autorais, outra relativiza ou até vê na tecnologia uma aliada para a arte. É o caso de Giselle Beiguelman, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e artista. Além de retratos criados por ela com apoio da inteligência artificial, a professora vocalizou em suas redes sociais críticas ao debate, que, para ela, está “no espírito do século 19”. Em entrevista ao Globo, ela ainda recorda de outros artistas contemporâneos. “Atribuir autoria ao sistema de IA seria o mesmo que imaginar o Duchamp pagando royalties para o fabricante do banquinho e da bicicleta, e o Andy Warhol para a fábrica de sopa Campbell”. José Alberto Lovetro, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, por sua vez, afirmou que “o problema da popularização das ferramentas de IA é que elas propagam a ideia de que o desenho, em determinado estilo, é algo gratuito, e que todo mundo pode fazer igual por meio de um computador. Essas tecnologias estão aí, e não vai ser possível contê-las. Então, é a hora de os autores se readaptarem para tomar as rédeas disso”.
Em meio a essas divisões, o deputado Guilherme Cortez entende que a esquerda precisa fazer uma autoanálise sobre o crescimento da extrema direita em todo mundo e o enfraquecimento de pautas progressistas. Para ele, é preciso dar senso de proporção às coisas, e entender a conjuntura.
“Enquanto a extrema direita está mandando para cucuias todas as regras éticas de convivência em sociedade, testando cada vez mais os limites do nosso tecido social, nós nos fechamos em uma bolha cada vez menor de pessoas com paciência para aguentar nosso rígido sistema moral. Isso é adoecedor para quem está dentro e nenhum pouco convidativo para quem está fora”, conclui.

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