Economist chama tarifaço de Trump de ‘Dia da Ruína’
Donald Trump tentou batizar a data em que anunciou suas tarifas comerciais para todo o planeta de “Dia da Libertação”, alegando que os Estados Unidos vinham sendo “saqueados” por nações “amigas e inimigas”. Para a revista britânica The Economist, o nome mais apropriado para a ocasião seria “Dia da Ruína”. Segundo o veículo, o anúncio das novas taxas, feito na véspera por Trump, representa “o erro econômico mais profundo, prejudicial e desnecessário da Era Moderna”. Um erro comparável ao desastre histórico da Grande Depressão – abalo econômico global que teve origem nos Estados Unidos, em 1929, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York. De acordo com a revista, a guerra comercial do presidente americano é sustentada por premissas falsas. Ao afirmar que o déficit comercial enfraquece o país, Trump ignora que isso reflete uma escolha doméstica na qual os americanos consomem mais do que produzem. As tarifas, dessa forma, não trarão trilhões de dólares para o país, como o republicano garantiu no Rose Garden, na Casa Branca, em seu discurso. Na verdade, as medidas encarecerão os produtos que os americanos importam, além de reduzirem a competitividade da indústria dos EUA e de distorcerem as cadeias globais. (Economist)
A reação às medidas foi imediata. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, disse que o país vai aplicar tarifas retaliatórias de 25% sobre veículos fabricados no país vizinho em resposta aos impostos de importação sobre automóveis estrangeiros anunciados por Trump. Já o presidente francês, Emmanuel Macron, pediu que empresas europeias suspendam investimentos nos Estados Unidos “até que as coisas sejam esclarecidas”. E a China, taxada em 54%, pediu aos EUA que “cancelem imediatamente” as tarifas, prometendo retaliação – a começar por medidas contra o gás e produtos agrícolas importados dos Estados Unidos. (Bloomberg)
Um dos sinais de alerta veio da Organização Mundial do Comércio (OMC), que em outubro passado previa crescimento de 3% do comércio mundial em volume para 2025. Com o tarifaço, a entidade estima que as exportações e importações no mundo sofrerão contração de 1% em volume. Para a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, o tarifaço desmorona o sistema global de comércio, baseado em regras comuns, ao impor tarifas ditas recíprocas para negociar bilateralmente com cada parceiro. (Valor)
As chamadas “Sete Magníficas”, como são conhecidas as maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos – Nvidia, Tesla, Microsoft, Meta, Apple, Alphabet e Amazon – perderam coletivamente mais de US$ 1 trilhão em ações nas negociações desta quinta-feira, de acordo com análise da CNBC. É um marco impressionante de como as tarifas de Trump prejudicaram os mercados financeiros. (CNBC)
Uma das companhias mais atingidas, a Apple viu suas ações despencarem mais de 9%, maior queda em valor de mercado (US$ 314 bilhões) da história da empresa em um único dia. O tarifaço atinge diretamente a cadeia produtiva da Apple, com taxas que variam de 26% a 54% sobre produtos vindos da China, Índia, Taiwan e Vietnã, centros de fabricação da empresa – só a China monta 90% de todos os iPhones, que podem ficar 43% mais caros se o custo for repassado aos consumidores. Caso a empresa tome essa decisão, um iPhone 16 Pro Max de 1 TB, vendido nos Estados Unidos por US$ 1.599, passará ao valor de US$ 2.300. (Financial Times e Reuters)
Falando em queda nas ações, as bolsas de Nova York desabaram. Foi o pior dia em Wall Street desde março de 2020: o Dow Jones caiu 3,98%, o S&P 500 recuou 4,84% e o Nasdaq, 5,41%. Durante viagem no Air Force One, Trump foi questionado se tinha uma mensagem para as empresas americanas preocupadas com as tarifas. Sua resposta: “Acho que tudo vai dar certo”. Na Ásia, Xangai e Hong Kong se livraram de um possível tombo por um feriado, mas o Nikkei, do Japão, caiu 2,75%. Pela Europa, as bolsas operam também no vermelho, com destaque para queda de 3,17% do FTSE MIB (Itália) e 1,74% do DAX (Alemanha). (New York Times e InfoMoney)
A tensão não ficou restrita ao mercado acionário. O petróleo tipo brent caiu quase 7%, para US$ 69,82, pressionado tanto pelo temor de desaceleração global quanto pelo anúncio da Opep+ de que aumentará a produção em maio. O bitcoin também recuou forte, com retração 5,5% e voltando à faixa dos US$ 81 mil, enquanto o Ethereum e outras criptos seguiram o movimento de baixa. (Poder 360 e CNN Brasil)
Já no Brasil, o cenário foi mais tranquilo. O Ibovespa oscilou bastante, mas fechou com leve queda de 0,04%, aos 131.140 pontos. O dólar, por sua vez, caiu 1,23% e encerrou cotado a R$ 5,62. (InfoMoney)
E o governo Lula não pretende retaliar os Estados Unidos por enquanto, segundo o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin. Ele afirmou que o Brasil continuará apostando em “diálogo e negociação”. (Estadão)
Jonathan Last: “Demorou apenas 71 dias para Trump destruir a economia americana, ferir mortalmente a Otan e destruir a ordem mundial liderada pelos americanos. Ele fez isso com o apoio entusiasmado de todo o partido republicano e movimento conservador. Ele fez isso com o apoio de uma diversidade de eleitores americanos. Ele não escondeu suas intenções, fez campanha com base nelas. Ele disse aos americanos que trairia nossos aliados e desistiria de nossa posição de liderança no mundo”. (The Bulwark)
Lawrence H. Summers: “Agora está claro que a administração Trump calculou tarifas recíprocas sem usar dados tarifários. Isso é para a economia o que o criacionismo é para a biologia, a astrologia é para a astronomia ou as ideias de Robert F. Kennedy Jr. são para a ciência das vacinas. A política tarifária de Trump faz pouco sentido mesmo se você acredita na economia de mercado protecionista”. (X)