A extrema direita vai às ruas

O que tem mudado no apoio ao campo bolsonarista expresso nas manifestações pelo país
Os atos nas ruas mobilizados pelo campo bolsonarista, mesmo em torno de pautas que buscam acobertar ou anistiar crimes, sejam eles eleitorais ou de atentado ao Estado de Direito, mostram que o bolsonarismo segue com forte base social, apesar de ter perdido alguns tentáculos de seu núcleo duro político.
Como em atos de rua anteriores, desde a tentativa de reeleição de Bolsonaro e o “Bicentenário da Independência Eleitoral ” no 7 de Setembro de 2022 que depois tornou o ex-presidente, e seu candidato a vice Braga Neto inelegíveis, segue presente e marcante uma sobreposição de símbolos e identidades.
Desde a trilha sonora com base no MC Reaça ecoando ataques a políticos e entidades de esquerda, passando pelo clima de uma celebração verde e amarela abençoada por Deus. Bem menos roupas militares do que em atos anteriores, afinal o inquérito da tentativa de golpe de Estado afugentou a ostentação militar e já colocou generais de alta patente no banco dos réus. Muito menos relação simbólica e direta a figuras do agro e do campo sertanejo e muito mais bandeiras de Israel vestindo homens, mulheres e famílias inteiras.
Ataques ao STF e ao jornalismo, constantes em cartazes e falas nos carros de som, são bem menores, mas ainda presentes, especialmente na boca daqueles escolhidos para chamarem a atenção pra si, numa tentativa “sútil” de cavar novos processos para ganhar ainda mais visibilidade e depois jogar a cartada do ataque à “liberdade religiosa”, como é o caso do pastor Silas Malafaia e outros do campo religioso ou de figuras que não têm mandato eletivo a perder. Tudo indica uma aparente naturalidade e envolvimento orgânico de lideranças, no fundo muito bem coordenadas na sua divisão de trabalho de quem bate e de quem assopra na realização dos atos.
Os atos desde fevereiro de 2024, mesmo antes do detalhamento do inquérito da PF, organizados como apelo de um núcleo duro bolsonarista às portas da cadeia, mostram que a base política disposta a pôr a cara para bater publicamente pela figura de Bolsonaro perdeu membros.
Do ponto de vista do núcleo duro político, também vemos mudanças. Os diferentes atos de rua pró Bolsonaro sempre tiveram quatro bases de sustentação política explícita: o agro, grande parte do campo evangélico, as Forças Armadas e a direita antidemocrática não religiosa, organizada na política institucional e fora dela. Os atos desde fevereiro de 2024, mesmo antes do detalhamento do inquérito da PF, organizados como apelo de um núcleo duro bolsonarista às portas da cadeia, mostram que essa base política disposta a pôr a cara para bater publicamente pela figura de Bolsonaro perdeu membros.
Essa base política que permanece, nos atos em 2024 e mesmo nos atos com muito menos público em 2025, poderia ser descrita a partir de dois subgrupos táticos, digamos assim. O grupo dos que podem – e lhes é útil – dobrar a aposta e o grupo daqueles que não têm alternativa a não ser dobrar essa aposta e demonstrar base social, seja para aumentar o custo político de prisões iminentes após os inquéritos abertos pelo STF e acolhimento das denúncias, seja para demonstrar força eleitoral para 2026. Expoentes do campo evangélico estão no primeiro grupo. A família Bolsonaro, seus aliados políticos mais próximos, incluindo quadros do partido do ex-presidente, o PL, estão no segundo.
Este grupo é mais fácil de explicar do que o primeiro.
Os mais de sete inquéritos abertos pelo STF para apurar as responsabilidades sobre os ataques extremistas às sedes dos Três Poderes, em Brasília, no 8 de Janeiro e as decisões recentes dessa mesma Corte de acolhimento das denúncias de tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado Democrático de Direito explicitam uma parte das robustas provas que ligariam esses crimes a diferentes representantes desse núcleo. Membros da família Bolsonaro, do PL e de aliados políticos do então presidente não só conhecem todas essas provas, como têm conhecimento de quais outros passos deram que poderiam qualificar ou explicitar seu possível papel em tudo isso.
Como sabem muito bem o que fizeram “no verão passado”, aos integrantes desse grupo só resta subir a temperatura social e política de um país polarizado para que a efetivação de suas prisões possa gerar reação. Foram sobre isso os atos de fevereiro e de setembro de 2024. Foto feita e base social visivelmente demonstrada naquele momento. Agora, com a pauta da anistia perdendo força no “apelo popular”, mas não nos corredores políticos, as ruas bolsonaristas estarão orientadas a mobilizar suas bases eleitorais para 2026. Por isso continuam em cena, mas ainda com mais força, figuras como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e outros, possivelmente candidatos ao Senado. Será sobre o “fora Lula” com pitadas de anistia – com foco nas mais de 500 “pessoas comuns e de bem” condenadas pelo 8 de Janeiro.
As mensagens e táticas estão mudando, e essa base social seguirá nas ruas.
Já o grupo dos que dobraram a aposta porque podem e lhes convém é composto principalmente por figuras políticas e religiosas do campo evangélico. Dentre elas poderíamos citar o pastor Silas Malafaia, o pastor Claudio Duarte e o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL), todos do Rio de Janeiro e todos presentes também no comício eleitoral pela reeleição travestido de celebração do Sete de Setembro em 2022.
O campo evangélico é inerentemente fragmentado e, na sua organização institucional, é como uma empresa competindo com a outra por fiéis, por capilaridade, por presença territorial, por visibilidade e por recursos.
Para entender essa aposta duplicada é preciso compreender que existem disputas dentro do próprio campo evangélico, sempre visto como um monobloco, mesmo entre apoiadores de Bolsonaro. Até dentre essas lideranças religiosas apoiadoras existem divergências. O campo evangélico é inerentemente fragmentado e, na sua organização institucional, é como uma empresa competindo com a outra por fiéis, por capilaridade, por presença territorial, por visibilidade e por recursos.
Para alguns, quanto mais palanque melhor. Quanto mais exposição, quanto mais falarmos deles e as bases falarem deles, melhor. Isso significa poder real e imediato de barganha com os governos em exercício? Não necessariamente. Mas significa manter sua base ativa e “vendê-la” como poder de influência para o governante da vez que se queira pedir apoio ou ameaçar.
Ao mesmo tempo, ausências importantes de figuras cativas em atos de rua anteriores são importantes de se ressaltar: representantes das Forças Armadas, o “agro é pop” e sertanejo e diferentes parlamentares que sustentam o bolsonarismo no Congresso Nacional, entre deputados e senadores. Os ausentes estariam num terceiro subgrupo que poderíamos definir como aqueles que não estão dispostos a dobrar a aposta, pelo menos não publicamente, e produzir provas contra eles mesmos, colocando em risco a continuidade dos seus mandatos, dos seus cargos na corporação e da viabilidade de seus negócios. Seguirão como base política da extrema direita no Brasil em qualquer nova personificação na política que ela assuma? Eu diria que sim. Estão dispostos a colocar tudo a perder pelo núcleo familiar bolsonarista e seu entorno? Não.
Com isso não estou afirmando que o bolsonarismo perdeu base social. Essa base social, disposta a ir às ruas, com variações entre Rio e São Paulo por dinâmicas políticas e sociais locais, poderia ser sintetizada a partir de estudos que identificaram o perfil majoritário dos presentes homens e mulheres – com uma presença maior de homens brancos, identificados com a direita, católicos e que se consideram muito conservadores no que diz respeito a temas como família, drogas e punição a criminosos. Com mais de 35 anos, renda familiar entre três e dez salários mínimos e ensino superior.
Às vésperas de novo ato convocado para a Avenida Paulista no próximo dia 6 de abril, relembro alguns dados importantes sobre o perfil dos presentes no último grande ato no mesmo local: 94% acreditavam que vivemos numa ditadura devido aos excessos do judiciário; 88% que Bolsonaro venceu as eleições; 49% defenderiam decretação de GLO por Bolsonaro e 42% apoiariam a intervenção militar; 43% eram católicos; 29% evangélicos; 10% espíritas ou kardecista. Como será no dia 6 de Abril?
Se a pergunta a se responder sobre os últimos atos é apenas se o bolsonarismo continua forte na sociedade, não precisávamos dos atos para responder que sim. Quem tiver alguma dúvida sobre isso ainda, precisa prestar menos atenção no noticiário do horário nobre nas principais emissoras de TV e prestar mais atenção no noticiário local, veiculado nas manhãs e tardes Brasil afora, nas rádios e na televisão aberta.