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Quando ‘GTA Online’ e ‘Hamlet’ se juntam para criar um espetáculo único

Foto: Divulgação

Enquanto o Reino Unido passava por seu terceiro confinamento, em janeiro de 2021, os cinemas continuavam fechados, deixando os atores Sam Crane e Mark Oosterveen em um futuro aparentemente sombrio. Jogar em um cenário de mundo aberto como o Grand Theft Auto Online parece ser um lampejo de esperança em meio à pandemia de covid, dando aos personagens reais a oportunidade de fazer o que agora só era permitido fazer virtual, como dar um mergulho na praia.

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A rotina dentro do jogo segue até os artistas descobrirem um teatro em um ambiente ainda não revelado, com plateia em um espaço aberto, algo propício para um momento como aquele, em que aglomerações reais eram proibidas. E por que não encenar Hamlet de William Shakespeare em uma peça dentro do GTA? Afinal, as pessoas não pegariam covid assistindo ao jogo. O problema, então, se resume à violência entre os jogadores, característico na proposta do próprio título da Rockstar Games.

“Em Hamlet, todo mundo morre”, diz Sam a Mark. “É perfeito.” O que parecia ser uma proposta sem grandes pretensões, passaria, então, a tomar forma e chegar a resultados não imaginados desde o início. Disponível na plataforma Mubi a partir desta sexta-feira, o documentário Grand Theft Hamlet foi inteiramente gravado no Grand Theft Auto Online, um mundo belo e violento, como a história de Hamlet. O projeto escrito e dirigido por Pinny Grylls foi o vencedor do prêmio de melhor documentário do SXSW 2024.

“Obrigado por ter vindo assistir a nossa apresentação. Este é Hamlet de William Shakespeare. Acredito que é a primeira vez que a peça é apresentada no Vinewood Bowl. Só peço que evitem de se matarem. E não matem os atores também.” É com este tom e entusiasmo que Sam começa a saga pela grande apresentação. A brincadeira ganha mais seriedade com a chegada de Pinny, documentarista e esposa de Sam, que resolve se juntar ao projeto sem nunca ter jogado antes o videogame.

Mas, como não se faz Hamlet com apenas duas pessoas no palco, Sam e Mark precisam recrutar mais pessoas no jogo. Como recrutar apenas abordando jogadores não rendeu o resultado esperado, o jeito foi apelar para um vídeo distribuído pelas redes sociais para chamar novos interessados.

Enquanto gravam o documentário, a vida real das pessoas começa a sobressair na história, mostrando a riqueza de nuances do filme. Como Mark, que revela em uma conversa despretensiosa com Pinny que tinha ido ao velório da irmã de seu pai, a última parente de sangue que ainda estava viva. “Sim, só sobrou eu”, ele responde, tentando seguir em frente. Sem esposa nem filhos, a maneira que encontrou para suportar o lockdown foi jogando e conectando-se com pessoas virtualmente.

Apesar de se passar totalmente dentro de GTA Online, é fácil entrar no clima do longa-metragem, sem se dar conta de que não se trata de um filme de animação produzido por grandes estúdios do tipo, mas sim, um documentário que aproveita os excelentes gráficos de um jogo para realizar montagens com diferentes planos e passagens, como um filme qualquer.

A imersão só não é ainda maior por conta da qualidade precária do microfone de alguns dos usuários durante a trama. A maneira como a trilha sonora se encaixa no filme faz parecer que parte do áudio foi colocado após a captação durante o jogo, bem como algumas das reflexões presentes no longa.

A busca pelo elenco faz com que a dupla de atores encontre colegas de profissão e outras pessoas com histórias ricas e interessantes. Algo que era um absurdo, como a ideia inicial de montar a peça no jogo, se torna um espaço de convivência, de troca de experiências. Revela-se afetos, sentimentos de companheirismo, aprendizado e de muita tensão.

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